Coronavirus - relato de um morador de New York depois do surto

Sou brasileiro, moro em New York há quase 3 anos e trabalho para uma grande empresa na região da Times Square, e como Nova Iorque é uma cidade que recebe gente de todo mundo o tempo todo, acabo tendo contato com pessoas das mais variadas nacionalidades.

Nova Iorque depois do coronavirus

Como sou bastante observador, não pude deixar de observar a mudança de comportamento dos novaiorquinos depois do coronavirus.

Além do aumento no uso das máscaras pelas pessoas, ao esvaziamento das ruas, eventos sendo cancelados, restaurantes diminuindo o número da capacidade de mesas para aumentar o espaço entre as pessoas, dentre várias outras mudanças, é perceptível, também, um comportamento psicossocial nas pessoas.

Soquinho

Para que não conhece Nova Iorque, saiba que o novaiorquino tem o hábito de se cumprimentar com soquinhos entre os punhos, em vez do tradicional aperto de mãos comumente usado entre os brasileiros e também entre outras nacionalidades.

Mas depois do coronavirus, esse comportamento, que já não é tão próximo assim, ficou ainda mais distante: algumas pessoas estão usando o cotovelo e até a troca de chutes com os pés para se cumprimentarem, ou simplesmente se acenam, à distância.

Cumprimento em New York

Certa vez, eu, curioso para saber o porquê das pessoas se cumprimentam com soquinhos entre punhos, perguntei a um colega de trabalho o motivo, ele foi taxativo: Higiene!

Confesso que foi difícil a adaptação aos soquinhos, mas hoje em dia já me acostumei.

Medo

É perceptível a mudança de comportamento, especialmente em Manhattan, onde, para todo canto que se vai, parece impossível não se expor ao vírus, a sensação que dá é que as pessoas parecem acuadas, e é compreensível. Eu, por exemplo, vejo risco em todo canto, como maçanetas de portas, mesas, botões de elevadores, uso de banheiro, dar descargas e por ai vai... e como Nova Iorque não é a cidade mais asseada do mundo, isso tudo parece aterrorizante.

Certo dia, vindo do trabalho, entro no prédio e pego o elevador, junto comigo estava um homem que estava todo encapuzado e usando máscara. Dentro do elevador ele pressionou o número do apartamento com o cotovelo e ficou o tempo todo de costas pra mim e de cabeça baixa, ele desceu antes de mim, e quando desceu, saiu esbarrando na parede oposta, evitando ao máximo se aproximar de mim.

Eu fiquei aterrozirado com a atitude dele, pois, por mais que eu tente, não consiguirei expressar via texto a situação em si, foi uma sensação de rejeição e ao mesmo tempo a constatação do quão aflitiva é a situação que o mundo está vivendo para algumas pessoas.

Depois desse episódio, eu percebi que eu também estava ficando meio paranóico, pois toda situação para mim era um risco, estava fazendo contorcionismo para fazer as coisas mais básicas, evitando ao máximo o contato com as mãos e toda vez que eu tocava meu rosto, eu pensava: será que havia o vírus em minhas mãos?!

Depois de alguns dias escravizado pelo medo, eu confesso que me tornei mais desleixado com a exposição, ou você toca sua vida normalmente ou vive em função de não pegar o vírus.

Mas ainda assim, eu não deixei de lavar as mãos constantemente sempre que toco em uma superfíce compartilhada, ir ao banheiro ou antes de comer, especialmente em uma cidade como Nova Iorque.

@mineironyc

 

 

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